quarta-feira, 23 de agosto de 2017







Eu tenho asa
que não sei soltar
diante da vida
torna-se pesada
tensa e dolorida
mas busco aprender
e me deixar leve
telvez o vento me veja
e me carregue com ele

um dia muito feliz
senti elas se abrindo
o peso saiu num riso
que eu dei com gosto
caminhei livre
com peito de galo











sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem Me Leva os Meus Fantasmas? O universo sabe.

Quanta coisa o corpo guarda, calado e opaco, caroços que nos entalam/ machucam/asfixiam e doem a cada toque que recebemos, mesmo que com afeto. Às vezes a gente grita e outros dói para falar, tudo está tão confuso por dentro que as palavras se embolaram, já não saem lineares e ninguém nos entendem. Pela janela dos olhos, fugimos, deixamo-nos em busca de conforto longe desse corpo tão doído e tensionado. Quando nos olham/notam, somos descobertos e chamados à realidade e tão desconfortavelmente nos colocamos diante do mundo/ dos outros. É desconfortável respirar, não saber o que fazer com as mãos, para onde olhar, conversar sentindo cada palavra sair como um metal da garganta e disputando a mente com os pensamentos negativos que ficam rodeando nossas cabeças. Há um buraco negro que suga nossa energia, nosso tempo e nosso amor, nos perdemos em um espaço frio e incompreensível. Buscamos conforto em religiões e elas nos dizem que a dor é da condição humana: viver é um fardo que temos que aguentar para conseguir nossa salvação e todas as dores são provações de Deus. Há pessoas que se confortam/conformam com essas crenças e outras que endoidecem/adoecem. Meu corpo se rebelou a cada discurso desses, adoecia, tremia, pulsava forte, vibrava de raiva e indignação. Em meio a surtos e perturbações, exigiu-me cuidados, uma atenção e escuta sensível às suas necessidades, por certo tempo tive medo das suas reinvindicações, achava que era mais um ataque da vida.  O dia durava mais e tinha que preencher cada segundo, pois sentia-os com muita intensidade e meu corpo se apresentava exposto em carne viva. Nesses momentos, o sol me tocava (e não machucava), era uma sensação tão boa que sentia vontade de rir e chorar sentindo ele me envolver, vinha o vento e levava os pensamentos ruins embora, deitava na grama e seu cheiro me preenchia como se fosse uma vitamina que faltava. Tomava banho de água fria e sentia meu corpo pulsante e vivo, enxergava uma força grandiosa, deitava no centro de pedras que me fazia sentir-me numa fortaleza. Foram vários aprendizados com a lua, com as plantas, com as pessoas, com a terra, as pedras, as águas, o invisível, as cores, o tempo. Percebi que o planeta vibra em cura, suas matas são fortalecedoras/ dão nos força, as plantas têm remédios para todas as nossas dores, as pedras nos protegem e energizam, são inúmeras as possibilidades de cuidados que o mundo nos oferece, é realmente grande mãe/pai. São crenças antigas que nos cegam, nos limitam em nossas possibilidades, nos impõem uma visão de mundo onde tudo isso são recursos naturais, bens de consumo, objetos para serem servidos em prateleiras e vendidos no mercado como coisa a parte de nós. É uma contradição grande e antiga nessa terra. Que esse texto possa trazer um outro olhar para esse chão que nos constituímos, cheios de encantamentos, presenteando-nos a todo momento com suas emanações de vida e amor. Ele cuida, precisamos saber como, é um processo de sintonia e conexão com o solo, compreender que nossas raízes estão lá embaixo, precisando serem olhadas, nutridas para continuarmos a crescer e gerarmos flores cada vez mais bela, este é o remédio. É uma grande caminhada, necessitamos nos silenciar e nos esvaziarmos dos valores e concepções que nos foram passados, colocarmo-nos na posição de filha/o, depois o sol vai mostrando o caminho. É tudo nosso, nada deles!

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pela calçada descalça

na calçada
vive-se
um dia
às vezes mais
a multidão
se aproxima
varrendo a vida
só a noite
no escuro
que é permitido
de dia
é paisagem
algo inerente
e quando loucos
gritam suas existências
à plateia indiferente
assusta-se
enxergam fantasmas
mortos, negados
a cada olhar desviado
mas estes que
gritam sem saber
gritam e gritam
por que seus corpos
já não são ouvidos
gritam por que incomodar
é a única forma de ter sentido
de manter-se vivo
e doem nossos ouvidos
doe nos omitirmos
doem nossos gritos contidos
até que tudo fica silencio
sufocado em raiva e desespero
tudo fica silêncio de novo
e seguimos em frente
cada vez mais ocos
cada vez mais frios

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sendo...

o que escuto do meu corpo são ruídos, gosto de prestar atenção nesses barulhos de explosão no estômago, gosto de me sentir e ver que está tudo bem, gosto dessa sensação de estar bem, só quem já saiu do controle e quis fugir de si sabe o quanto perceber-se bem é uma grande satisfação de ser. Eu queria segurar a mão de todo mundo que aparecia na minha frente, dizer que só precisamos segurar um a mão do outro e formando uma grande unidade, sem pensar no tempo que demoraríamos pra juntarmos a todos, o importante é que agora estávamos fazendo a coisa certa. Eu nunca tive a coragem de começar esse movimento, pois a loucura é algo que me assusta e me deixa envergonhada, sempre tive medo de algum dia perceber que as pessoas percebem tudo que se passa em minha mente e em como olho para tudo como se fosse um fantasma. Talvez eu aprenda a cuidar de mim e passe a querer menos ajuda de uma força que desconheço e talvez isso seja o que eu tenha de fazer, seja a minha responsabilidade para contribuir com esse espaço, mas e o egoísmo? penso que não sou forte para viver sem querer atenção e eu me fecho com vergonha de me perceber tão infantil. Na verdade eu só quero que segurem a minha mão, só quero que o mundo pare de ser tão cruel, só quero que as maldades não chegue a um nível abaixo do suportável, que não seja tão medonhamente horrível. Tem coisas que nos apavoram, faz dormirmos com a luz acessa, porque são reais, não são frutos da nossa imaginação, é medonho e real e não há abraço ou palavra de conforto que diminua o pavor, pois existe, acontece. Eu quero gritar e pedir que deixamos de nos iludir com o cotidiano, ele não precisa ser vivenciado, ele pode ser completamente paralisado enquanto damos um basta nessa força que dita o futuro enquanto o corpo padece com o passado, mas não tenho a coragem necessária e peço clemência com medo, como quem pede para um torturador um pouco de clemência. E tudo o que quero é compreender que estou completamente errada do que estou imaginando. Sinto um abraço terno, é a sonolência me chamando para uma conversa com uma parte de mim que sabe ouvir serena e com atenção até onde posso saber sobre a vida e eu acordo com a sensação de ter entendido algo que é tão grande que preenche-me sem poder sair pela boca. Eu me calo e aprecio o meu corpo olhando e sendo.
Pela guela
descobri confissão 
Saindo soprado
Do coração 
Minha veia 
Tem em si
rastro de areia
de caminhos
tão antigo
que o mundo guarda
Pra mim
e me conecto
quando me encanto
de peito aberto
e danço
e piso forte
pra tremer
vibrar meu norte
sigo meu ser
deixo marca
pois meu corpo
é pegada
e sussura
e transborda
e eu vou
desenhando-me
no firmamento
do que sou
pertenço e conto
a que vim
mergulhada na vida
onde nossas águas se encontram.

terça-feira, 4 de julho de 2017



O meu peito
é sentimento
e não objeto
de olho sedento
Sou gente!
EU GRITO eu grito
Eles não sabem
o que é isso,
mas eu sei

e resisto
R- existo

domingo, 18 de junho de 2017

Materialmente ilusório

Olho-me no espelho
certifico-me que estou só
me observo
tão eu
tão certo
meu corpo
parado e fosco
me confunde
e de fora
interiormente
me pergunto:
sou abrigo ou gaiola?
atordoa, fico a olhar
um pedaço de carne refletido
tão turvo e sem brilho
no vidro a me tampar
tão miúdo
camúfla o mundo
que mora em mim
que eu engulo
todos os dias

o concreto é assim
dizem que é de verdade
mas está aí uma prova
que é uma grande ilusão