sábado, 28 de outubro de 2017

no silencio cortávamos cebolas e dizíamos uma coisa e outra que não precisava ser dita ou não faria muita diferença, mas que dizíamos para enfeitar o silêncio que nos vestia e para nossos corpos ficarem menos nu, menos expostos a qualquer indiscrição, Me falava sobre o que comer, sobre as horas que passou no mercado, sobre as pessoas que ficaram gripadas por causa da secura, eu pensava em responder algo mais animado para continuar a escutar suas palavras e receber sua atenção, mas me sufocava com a falta de ar, o meu peito pesado com tantas palavras engolidas. Eu pensava em derrubar um copo para quebrar a tensão que sentia, para que brigasse comigo e eu pudesse responder e expressar minha raiva, meus sentimentos. Em breve acabaríamos de preparar a comida e tentava me lembrar que depois ficaria tudo bem, e assim o vento ia nos levando como dois balões sem direção pelo infinito, sem controle ou qualquer garantia que fossemos prosseguir lado a lado por muito tempo. De madrugada eu acordava com toda a coragem e angústia necessária para estourar nossas bolhas, mas logo passava. 

domingo, 15 de outubro de 2017

Brasília,
cidade do sol
e da seca
grita
se derrete
e eu aceito
é preciso
se dobrar
fazer a curva
e aí então
seguir o instinto
e correr livre

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Thetaheling

Na primeira sessão, já senti a força que tem o amor e como uma dor pode ser liberada sem machucar, sem rasgar ao sair, com muitas lágrimas e sorrisos leves. Desde então, o cenário ficou tão acolhedor, que as palavras saiam sem muito filtro e era tão gostoso soltar cada pensamento preso e pesado que acreditava que sairia voando no final de cada sessão. Eu via animais a cada término e cada um me mostrava aspectos meus que foram trabalhados, vi girafa, peixe, macaco. Por fim, descobri que tenho asas, elas se abriram quase que com um espirro, ou melhor, a cada sorriso que dava com gosto.  Foi tudo tão forte e transformador que semanas depois de começar o atendimento eu mesma resolvi fazer esse tal de thetaheling, quando a gente vivência e sente na prática, nossas palavras e ações de cura vem de um lugar verdadeiro.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017


Se meu coração falasse
seria breve
em sua expressão
nada poético
e nos desencontraríamos
De olhos abertos
não o veria
se exprimindo
seríamos dois
existindo-nos
mas não,
em seu canto
decora-me
e me conta
quando o visito
eu me sinto
com pausas para o café

Curso(IFB) de Escrita criativa e producao de livros autorais/artesanais: pela democratizacao do livro e da literatura. =)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017







Eu tenho asas
enroscada em mim
não as via
presa e fechada
diante da vida
torna-se pesada
tensa e dolorida
um dia
descobri-me passarinho
era pura alegria
senti elas se abrindo
 quando o peso do peito
saiu num riso 
que dei com gosto
desde então
busco 
me deixar leve
quando o vento me ver
estarei desfirme
para ir com ele


e quando alguém grita pula, eu me jogo na rua e alço voou











sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Quem Me Leva os Meus Fantasmas? O universo sabe.

Quanta coisa o corpo guarda, calado e opaco, caroços que nos entalam/ machucam/asfixiam e doem a cada toque que recebemos, mesmo que com afeto. Às vezes a gente grita e outros dói para falar, tudo está tão confuso por dentro que as palavras se embolaram, já não saem lineares e ninguém nos entendem. Pela janela dos olhos, fugimos, deixamo-nos em busca de conforto longe desse corpo tão doído e tensionado. Quando nos olham/notam, somos descobertos e chamados à realidade e tão desconfortavelmente nos colocamos diante do mundo/ dos outros. É desconfortável respirar, não saber o que fazer com as mãos, para onde olhar, conversar sentindo cada palavra sair como um metal da garganta e disputando a mente com os pensamentos negativos que ficam rodeando nossas cabeças. Há um buraco negro que suga nossa energia, nosso tempo e nosso amor, nos perdemos em um espaço frio e incompreensível. Buscamos conforto em religiões e elas nos dizem que a dor é da condição humana: viver é um fardo que temos que aguentar para conseguir nossa salvação e todas as dores são provações de Deus. Há pessoas que se confortam/conformam com essas crenças e outras que endoidecem/adoecem. Meu corpo se rebelou a cada discurso desses, adoecia, tremia, pulsava forte, vibrava de raiva e indignação. Em meio a surtos e perturbações, exigiu-me cuidados, uma atenção e escuta sensível às suas necessidades, por certo tempo tive medo das suas reinvindicações, achava que era mais um ataque da vida.  O dia durava mais e tinha que preencher cada segundo, pois sentia-os com muita intensidade e meu corpo se apresentava exposto em carne viva. Nesses momentos, o sol me tocava (e não machucava), era uma sensação tão boa que sentia vontade de rir e chorar sentindo ele me envolver, vinha o vento e levava os pensamentos ruins embora, deitava na grama e seu cheiro me preenchia como se fosse uma vitamina que faltava. Tomava banho de água fria e sentia meu corpo pulsante e vivo, enxergava uma força grandiosa, deitava no centro de pedras que me fazia sentir-me numa fortaleza. Foram vários aprendizados com a lua, com as plantas, com as pessoas, com a terra, as pedras, as águas, o invisível, as cores, o tempo. Percebi que o planeta vibra em cura, suas matas são fortalecedoras/ dão nos força, as plantas têm remédios para todas as nossas dores, as pedras nos protegem e energizam, são inúmeras as possibilidades de cuidados que o mundo nos oferece, é realmente grande mãe/pai. São crenças antigas que nos cegam, nos limitam em nossas possibilidades, nos impõem uma visão de mundo onde tudo isso são recursos naturais, bens de consumo, objetos para serem servidos em prateleiras e vendidos no mercado como coisa a parte de nós. É uma contradição grande e antiga nessa terra. Que esse texto possa trazer um outro olhar para esse chão que nos constituímos, cheios de encantamentos, presenteando-nos a todo momento com suas emanações de vida e amor. Ele cuida, precisamos saber como, é um processo de sintonia e conexão com o solo, compreender que nossas raízes estão lá embaixo, precisando serem olhadas, nutridas para continuarmos a crescer e gerarmos flores cada vez mais bela, este é o remédio. É uma grande caminhada, necessitamos nos silenciar e nos esvaziarmos dos valores e concepções que nos foram passados, colocarmo-nos na posição de filha/o, depois o sol vai mostrando o caminho. É tudo nosso, nada deles!

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pela calçada descalça

na calçada
vive-se
um dia
às vezes mais
a multidão
se aproxima
varrendo a vida
só a noite
no escuro
que é permitido
de dia
é paisagem
algo inerente
e quando loucos
gritam suas existências
à plateia indiferente
assusta-se
enxergam fantasmas
mortos, negados
a cada olhar desviado
mas estes que
gritam sem saber
gritam e gritam
por que seus corpos
já não são ouvidos
gritam por que incomodar
é a única forma de ter sentido
de manter-se vivo
e doem nossos ouvidos
doe nos omitirmos
doem nossos gritos contidos
até que tudo fica silencio
sufocado em raiva e desespero
tudo fica silêncio de novo
e seguimos em frente
cada vez mais ocos
cada vez mais frios

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sendo...

o que escuto do meu corpo são ruídos, gosto de prestar atenção nesses barulhos de explosão no estômago, gosto de me sentir e ver que está tudo bem, gosto dessa sensação de estar bem, só quem já saiu do controle e quis fugir de si sabe o quanto perceber-se bem é uma grande satisfação de ser. Eu queria segurar a mão de todo mundo que aparecia na minha frente, dizer que só precisamos segurar um a mão do outro e formando uma grande unidade, sem pensar no tempo que demoraríamos pra juntarmos a todos, o importante é que agora estávamos fazendo a coisa certa. Eu nunca tive a coragem de começar esse movimento, pois a loucura é algo que me assusta e me deixa envergonhada, sempre tive medo de algum dia perceber que as pessoas percebem tudo que se passa em minha mente e em como olho para tudo como se fosse um fantasma. Talvez eu aprenda a cuidar de mim e passe a querer menos ajuda de uma força que desconheço e talvez isso seja o que eu tenha de fazer, seja a minha responsabilidade para contribuir com esse espaço, mas e o egoísmo? penso que não sou forte para viver sem querer atenção e eu me fecho com vergonha de me perceber tão infantil. Na verdade eu só quero que segurem a minha mão, só quero que o mundo pare de ser tão cruel, só quero que as maldades não chegue a um nível abaixo do suportável, que não seja tão medonhamente horrível. Tem coisas que nos apavoram, faz dormirmos com a luz acessa, porque são reais, não são frutos da nossa imaginação, é medonho e real e não há abraço ou palavra de conforto que diminua o pavor, pois existe, acontece. Eu quero gritar e pedir que deixamos de nos iludir com o cotidiano, ele não precisa ser vivenciado, ele pode ser completamente paralisado enquanto damos um basta nessa força que dita o futuro enquanto o corpo padece com o passado, mas não tenho a coragem necessária e peço clemência com medo, como quem pede para um torturador um pouco de clemência. E tudo o que quero é compreender que estou completamente errada do que estou imaginando. Sinto um abraço terno, é a sonolência me chamando para uma conversa com uma parte de mim que sabe ouvir serena e com atenção até onde posso saber sobre a vida e eu acordo com a sensação de ter entendido algo que é tão grande que preenche-me sem poder sair pela boca. Eu me calo e aprecio o meu corpo olhando e sendo.
Pela guela
descobri confissão 
Saindo soprado
Do coração 
Minha veia 
Tem em si
rastro de areia
de caminhos
tão antigo
que o mundo guarda
Pra mim
e me conecto
quando me encanto
de peito aberto
e danço
e piso forte
pra tremer
vibrar meu norte
sigo meu ser
deixo marca
pois meu corpo
é pegada
e sussura
e transborda
e eu vou
desenhando-me
no firmamento
do que sou
pertenço e conto
a que vim
mergulhada na vida
onde nossas águas se encontram.

terça-feira, 4 de julho de 2017



O meu peito
é sentimento
e não objeto
de olho sedento
Sou gente!
EU GRITO eu grito
Eles não sabem
o que é isso,
mas eu sei

e resisto
R- existo

domingo, 18 de junho de 2017

Materialmente ilusório

Olho-me no espelho
certifico-me que estou só
me observo
tão eu
tão certo
meu corpo
parado e fosco
me confunde
e de fora
interiormente
me pergunto:
sou abrigo ou gaiola?
atordoa, fico a olhar
um pedaço de carne refletido
tão turvo e sem brilho
no vidro a me tampar
tão miúdo
camúfla o mundo
que mora em mim
que eu engulo
todos os dias

o concreto é assim
dizem que é de verdade
mas está aí uma prova
que é uma grande ilusão
   
 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Como aprendi a falar

Nasci
ouvidos atentos
ouvi
tantos sons
que nem me lembro
davam-me palavras
todos os dias
olhava-as chegando
 e em mim
se aconchegavam
me conectavam
assim pude sentir
os que me rodeavam
balbuciava e ria
tamanha era a graça
a palavra ia rente
fazia-se túnel entre
ligava-nos

quanta magia
pensava
a boca mexia
abria, fechava
e dentro de mim
algo regia
o que a língua expressava
e foi assim
que pouco a pouco
também aprendi
a reger em mim
essa orquestra de palavras



sábado, 13 de maio de 2017

Guardando um pedaço de Mambaí

Adentrando Mambaí
no interior de Goiás
onde tem pé de pequi
e gente linda por demais
tantos causos interessantes
que nos livros nunca vi
só essa vida de viajante
pra tanta ciência descobri
são sagas, sinas e sabedorias
no meio desse mundão
do povo que constrói e vivencia
muitos feitos e ação 
vive os segredos da terra
dedica a ela sua mão
sabe bem que vem dela
nossa força  e nosso pão
as mulher raizeira
pela fé que tem nas plantas
pode vir qualquer ziqueira
só no chá tem confiança
e bravamente acreditam
nas folhas caules e talos
entregando suas vidas
aos cuidados do Cerrado
se o problema fosse doença
não daria preocupação
pras plantas pedía bença
e já vinha a solução
mas é coisa entre gente
briga de irmão com irmão
dos que plantam a semente
e dos que se diz donos do chão
deixa a vida mais pesada
com essa de querer explorar
esse povo que na enxada
não tem medo de pegar
a natureza toda abundante
entre buritis e pequizeiros
oferta a seus habitantes
flores de muitos cheiros
caliandras, margaridas
enche os lugar de amor
e uns de mal com a vida
mata elas com o trator
os agricultor preocupado
com todessa situação
proseiam angustiados
não vendo solução
e eu que sou da cidade
entendendo meu lugar
vejo que nesse combate
ta faltando nois somar

domingo, 23 de abril de 2017

“ O rio não tem cabelo, minha fia”


“ O rio não tem cabelo, minha fia”
Dá mesma forma é a vida, não temos onde nos segurar na correnteza do tempo. Não para, leva-nos constantemente para o futuro. Movemo-nos por pessoas, seres, lugares, pensamentos, são o que nos alimenta (fortalecendo ou enfraquecendo). No entanto, é difícil lidar com esse fluir, conviver com a força das águas, tão tirânica a nossos olhos. É o medo das pedras, da solidão, do que se fez e não pode mudar, do que está por vir, do deixar de ser. É sim, para muitos, desesperador, angustiante, causa estresse, desânimo, tristezas. A aflição fica, enquanto a vida percorre seu rio, queremos respostas- salvação. E há, em toda parte, pessoas com soluções para viver, como se a vida precisasse ser curada. Gritam-se certezas, e nós, aflitamente, nos agarramos, com tanta força que nos tornamos pura tensão, defendendo-as com unhas e dentes. Defendendo-nos da angústia da incerteza. Verdades que nos causa injuria quando questionada, o corpo treme e o coração bombardeia. Assim, de um jeito desconfortante, elas nos confortam. As verdades, quem as criou? Por qual motivo? Será que por medo da torrente ou por ter virado onda? As ondas, essas mesmas que nos carregam. Somos carregados pelas verdades dos que se tornaram ondas? Quanta ilusão! Continuamos a sermos carregados, ainda com fome de laços, de vínculos.  E se déssemos as mãos? E se ao movermo-nos, nos tocássemos? Nos olhássemos? Nos sentíssemos? Como se uma teia de aranha firme e flexível tecesse também os nossos destinos. Sentiríamos. Sentir-íamos. Sentindo cada instante, nutriríamos de cada momento. Fortalecidos seguiríamos. A vida seria embalo. Seríamos fogo, seríamos terra, seríamos rio. E aí, já cheios de amor, sem mais perguntas, diríamos: Que flua, mas com afeto.

Texto escrito após eu assistir o documentário sobre a Dona Flor, parteira e raizeira da comunidade do Moinho, Chapada- Go. Encantada com seu jeito terno e firme de ser. Também muito embasado nos aprendizados com a Pedagogia Griô, referência para toda a vida.


domingo, 2 de abril de 2017

O conhecimento liberta?!?

O conhecimento liberta". Mas que conhecimento? Que saber me liberta? A escola me proporcionou 'aprender' tantas coisas, menos de mim. Aquele espaço que passamos por longos anos, que poderia nos proporcionar tantas descoberta e potencializar nossa curiosidade sobre o mundo, nos cega e emudece. Como podemos sufocar nosso corpo e identidade assim? Ás vezes até para sempre, para se inserir nesse sistema de objetificação e produção alienada, adoecido e endoidecedor. Quero saber de mim, pelos meus, da minha história, vivenciar meu corpo, minha corporeidade. Sentir que sou parte, conexão e assim tenho meus direitos e responsabilidades. Sou continuação de algo que começo a vislumbrar só agora, pois tentam apagar de nós desde a infância. 

 
Esse texto foi escrito depois de uma vivência mágica e ancestral em um workshop de Contação de História na tradição do Griô realizada no Jovem de Expressão e facilitada por Luciana Meireles. Cantamos uma música da nossa tradição oral brasileira que resume bem o que essa Pedagogia Griô está sendo para mim:
"A Natália vai ter que entrar

  na olaria do povo
  ela desde como um vaso velho e quebrado
   e sobe como um vaso novo"

terça-feira, 14 de março de 2017

Reflexões que tive durante a oficina A avó ancestral desenvolvida no curso de Pedagogia Griô e facilitada maravilhosamente por Luciana Meireles Cardoso, proporcionando-me muita cura, compreensão e fortalecimento.


Não estou sozinha e meu caminho começou há muitas léguas passadas. Minha avó e eu, duas mulheres e vidas tão diferentes, tempos tão diferentes. Por muito tempo julguei uma criação, uma forma de ser, um alguém que me deu vida, que se fez vida do jeito que deu (como pode), pois para dar conta das durezas da vida se endureceu, foi criando um casulo ante as dores do mundo. E eu, percebo que ainda a sinto, entendo que ela sou eu em um outro tempo e espaço. Mas a que se ver que os tempos mudaram, e seus gritos fizeram-se valer e continuam a ecoar, nossas avós nos presentearam com sua força, com suas histórias de vida cheias de guerras e vitórias diárias. Todas nós deveríamos ter a chance de ouvir e contar as histórias de nossas avós, todas são grandes guerreiras, não importa se lutou numa guerra contra não sei quem ou casou-se e teve 15 filhos. São todos grandes acontecimentos repletos de desafios diários nesse grande feito que é viver. 




A bença às minhas avós. A bença à Lillian Pacheco que com sua sabedoria e dedicação nos propicia esses processos de conexão e compreensão da nossa história.