domingo, 23 de abril de 2017

“ O rio não tem cabelo, minha fia”


“ O rio não tem cabelo, minha fia”
Dá mesma forma é a vida, não temos onde nos segurar na correnteza do tempo. Não para, leva-nos constantemente para o futuro. Movemo-nos por pessoas, seres, lugares, pensamentos, são o que nos alimenta (fortalecendo ou enfraquecendo). No entanto, é difícil lidar com esse fluir, conviver com a força das águas, tão tirânica a nossos olhos. É o medo das pedras, da solidão, do que se fez e não pode mudar, do que está por vir, do deixar de ser. É sim, para muitos, desesperador, angustiante, causa estresse, desânimo, tristezas. A aflição fica, enquanto a vida percorre seu rio, queremos respostas- salvação. E há, em toda parte, pessoas com soluções para viver, como se a vida precisasse ser curada. Gritam-se certezas, e nós, aflitamente, nos agarramos, com tanta força que nos tornamos pura tensão, defendendo-as com unhas e dentes. Defendendo-nos da angústia da incerteza. Verdades que nos causa injuria quando questionada, o corpo treme e o coração bombardeia. Assim, de um jeito desconfortante, elas nos confortam. As verdades, quem as criou? Por qual motivo? Será que por medo da torrente ou por ter virado onda? As ondas, essas mesmas que nos carregam. Somos carregados pelas verdades dos que se tornaram ondas? Quanta ilusão! Continuamos a sermos carregados, ainda com fome de laços, de vínculos.  E se déssemos as mãos? E se ao movermo-nos, nos tocássemos? Nos olhássemos? Nos sentíssemos? Como se uma teia de aranha firme e flexível tecesse também os nossos destinos. Sentiríamos. Sentir-íamos. Sentindo cada instante, nutriríamos de cada momento. Fortalecidos seguiríamos. A vida seria embalo. Seríamos fogo, seríamos terra, seríamos rio. E aí, já cheios de amor, sem mais perguntas, diríamos: Que flua, mas com afeto.

Texto escrito após eu assistir o documentário sobre a Dona Flor, parteira e raizeira da comunidade do Moinho, Chapada- Go. Encantada com seu jeito terno e firme de ser. Também muito embasado nos aprendizados com a Pedagogia Griô, referência para toda a vida.


domingo, 2 de abril de 2017

O conhecimento liberta?!?

O conhecimento liberta". Mas que conhecimento? Que saber me liberta? A escola me proporcionou 'aprender' tantas coisas, menos de mim. Aquele espaço que passamos por longos anos, que poderia nos proporcionar tantas descoberta e potencializar nossa curiosidade sobre o mundo, nos cega e emudece. Como podemos sufocar nosso corpo e identidade assim? Ás vezes até para sempre, para se inserir nesse sistema de objetificação e produção alienada, adoecido e endoidecedor. Quero saber de mim, pelos meus, da minha história, vivenciar meu corpo, minha corporeidade. Sentir que sou parte, conexão e assim tenho meus direitos e responsabilidades. Sou continuação de algo que começo a vislumbrar só agora, pois tentam apagar de nós desde a infância. 

 
Esse texto foi escrito depois de uma vivência mágica e ancestral em um workshop de Contação de História na tradição do Griô realizada no Jovem de Expressão e facilitada por Luciana Meireles. Cantamos uma música da nossa tradição oral brasileira que resume bem o que essa Pedagogia Griô está sendo para mim:
"A Natália vai ter que entrar

  na olaria do povo
  ela desde como um vaso velho e quebrado
   e sobe como um vaso novo"